Moacyr Scliar

03abr11

“… o elemento Jaime Kantarovitch, codinome Cantareira, que puxa de uma perna, não pode correr. Detido e conduzido à sede da Unidade de Operações Especiais, foi interrogado. Nesse procedimento utilizou-se o auxílio de choques elétricos, interrompidos por duas razões: 1) sucessivos desmaios do elemento Jaime Kantarovitch, codinome Cantareira, e 2) falta de energia elétrica. Desta maneira, o interrogatório não pôde ser completado. O elemento Jaime Kantarovitch, codinome Cantareira, repetiu várias vezes que a reunião tinha por objetivo discutir literatura e tomar chimarrão. No apartamento foi efetivamente encontrada uma cuia de chimarrão ainda morna e vários livros, o que naturalmente não invalida a hipótese de reunião subversiva.”

Scliar é um grande contador de histórias. Gosto do humor, da crítica, da política, da construção dos personagens, do jeito prático da escrita, do jeito criativo.

“Os leopardos de Kafka” http://migre.me/4aW6W


2011

11fev11


Foi depois daquela noite, ali, naquele bar, sentada numa cadeira naquela primeira mesa, com as costas apoiadas naquela parede mal acabada, que percebi você a me olhar. Não que o papo, ali, não estivesse interessante, pelo contrario. Havia em você uma maneira, bem colocada numa camisa xadrez vermelha, que me fez querer te observar. O jazz virou pano de fundo, qual era o trio mesmo que tocava naquela noite? Mas lembro bem do nosso caminhar, pra lá e pra cá. Seguiram os passos, os amigos, a afloração, as brincadeiras, as comparações, as declarações, a conta do bar, o café, o email escrito num guardanapo e o celular a tocar. E a tocar novamente.

Eu não sabia que depois daquela noite, naquele bar, eu passaria a acreditar que cada sorriso meu havia sido feito para o seu olhar. Que havia precisão no desenho dos nossos corpos, afinidades nas linhas, múltiplas linhas, dos nossos pensamentos, coerência nas nossas criticas. Não faz muito tempo, eu sei. Mas existe um sentimento muito forte que não se adéqua a esse tempo. E esse mineirinho, mais paulistano do que eu, sabe o que fazer para me encantar, sabe muito bem em qual tom a minha vida toca. E, desde então, quero levá-lo comigo, quero tê-lo, meu companheiro.

Estava cansada desse meu sentimento sensato. Não mais, carrego apenas aquela certeza de que me faltava algo, algo que sinto por ele, e que não quero mais me afastar. De todos os sentimentos, aqueles dos quais não queremos viver sem. Nessa vida, de todas as memórias, aquelas que lembrarei com um semblante imaculado.

É simples, depois daquela noite, naquele bar, percebi que não haveria lugar melhor no mundo onde eu deveria estar. Essas coisas acontecem…


Presto minha homenagem. I love Queen!


Quando minha mãe o trouxe para casa ainda muito pequeno, Paul, de McCartney, não gostou nenhum pouco, genioso. Pena ele não ter conhecido Pink, irmã de Floyd, de Pink Floyd, facilmente o adotaria, foi uma fêmea exemplar. Hoje ele é o único, me lembra muito a Led, de Zeppelin, por algumas manias. De todos os gatos que tivemos, Jimi é um dos mais amorosos.


Mas agora você já sabe. rs


Assim seja

02jul10

Se não for pelo carinho, se não for pela paixão, por um sorriso rasgado, ou mesmo o calar dos meus lábios. Se não for pra sentir, se não for pra teimar, pra lutar pelos princípios daquele que escolhemos chamar. Se não for pra abraçar, beijar, resmungar, compreender, ah, e como não compreender? Se não for pra ter fé, pra carregar em si aquela certeza maior do que o mundo, levar na mente aquele sonho que te faz acordar todo dia e não deixar de viver nem um só dia. Se não for para acreditar, zelar, cuidar, se não for para dividir, compartilhar, se não for para amar. Se não for pra deitar. Se for só, então, para ocupar o pouco tempo egoísta que te resta, o tempo corrompido de quem é infeliz por não saber ser gentil com as próprias escolhas que, ao longo da vida, fez. Se for pra trair, desrespeitar, esmagar o que o outro tem a falar. Se for pra mentir, consentir, não admitir que exista outro alguém ali, ao lado, responsável por si. Se for para alegar fraqueza, pobre incoerência, o erro, ainda assim, será o de polir uma relação marcada pelo desequilíbrio de dois corpos. Se não for para ser forte, que não seja.


Killer Queen

23jun10

- Aceita um champagne?

- Aceito. (com um olhar sério)

(- Por favor, duas taças de Möet et Chandon.)

- Charuto?

- Não fumo. Só incenso. (sorriu)

- Prefiro os cubanos aos indianos…

- O que tem contra os indianos?

- Pensam que são transcendentais…

- Mas não pensam que vivem num regime socialista.

- Você já foi a Índia?

- Não. Acredito que você já tenha ido, inclusive a Cuba.

- Sim, meu pai negocia com uma empresa na Índia, e a Cuba fui ainda menino com minha mãe, queria comprar umas guayaberas cubanas…

- E foi a Cuba! (com um certo cinismo)

- Sim. Depois voltei algumas vezes com uns amigos. Conhece Cuba?

- Não pessoalmente. (cinismo e ironia)

- É muito interessante. Deveria ir.

- Sim, quando possível. (tentou não parecer rude)

- Mais interessante que ir a Índia.

- A Índia era um pouco fora de mão quando fiz meu mochilão, não sei bem como é, pessoalmente… (ironia)

- Gosto do seu tom. Você tem o tipo de humor que me agrada.

- O tipo que bebe champagne?

- Podia ser melhor, se fumasse charuto…

- Alem dos cubanos, vejo que também te agradam os franceses.

- Ah, adoro a cultura francesa. Você já…

- Se já fui a França? Sim, uma vez. Conheci Paris, Nice, Les Arcs, Marseille, St. Tropez e algumas outras cidadezinhas na região de Provence. Muito bonito.

- Demais. Vejo que você prefere regiões menos habitadas…

- (risos) Não é isso, minha conta corrente que é habitada por poucos dígitos. Faço o que posso, quando posso…

- Então vamos brindar as boas possibilidades! A propósito, adoro o verão de St. Tropez…

- Fui no inverno. (risos)

- Não acredito. Você precisa conhecer St. Tropez no verão…

- Você já foi a St. Tropez no inverno?

- Não!

- Pois deveria. Tamanha certeza acerca do verão sem conhecer o inverno. (ironia)

- Esse seu humor me lembra um pouco o dos britânicos…

- Ainda não fui a Inglaterra! (risos, cinismo e ironia)

- Sei, não pessoalmente. Gostei de você. Vou ter que pedir uma garrafa de Möet et Chandon.

(Desalento. Ela sabia que nada fizera para agradar o rapaz que lhe oferecia uma garrafa que, para ele, pouco valia.)


Contido

22jun10

Levei um tempo para admitir que mais interessante pode ser aquele que tem em si elementos contidos em mim.


“Ele é um alienígena! Ele é um clone! E ele tem uma guitarra!” (The Rocket)

“Um gibi divertido com desenhos coloridos e sequências cinematográficas… Red Rocket 7 homenageia cada roqueiro que já fez a diferença – e, em alguns casos, ensina a eles um truque ou dois” (The Rocket)

“O que Mike Allred criou foi a essência da suprema fantasia juvenil, reunindo tudo o que o fascinou na sua infância – filmes de ficção científica e David Bowie, histórias de horror e Beatles… Trata-se de ficção estimulada por uma autobiografia cultural” (Alternative Press)

Eu gostei. É divertido, os traços não são tão detalhados quanto os da Marvel, mas têm identidade. A relação do personagem Red Rocket com John Lennon é engraçada, o jeito como ele conhece cada um dos mais populares roqueiros, o decorrer das décadas, enfim, uma boa referência.

Red Rocket 7: A Saga do Rock
ALLRED, Mike – São Paulo: Devir, 2007




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